O alarido que para aí vai por causa de uma cena numa sala de aulas num liceu ( desculpem é da idade ) do Porto. Deu abertura nos tele-jornais. Entrevistas a especialistas e sindicalistas. Os blogues passam o video. Os comentários são mais que muitos. E tudo porque uma aluna que tinha o telemóvel ligado recusou-se a dá-lo à professora e esta qual jovem colega da dita comporta-se à altura. Pareciam duas crianças a disputarem um brinquedo. Outra filmou e pôs a cena no Youtube. Sucesso garantido. Top de audiências.
" Já não há autoridade !", clamam uns. Outros dizem : " Ao que chegou a escola pública!". Os mais radicais culpam a ministra pela ocorrência e quase exigem a sua demissão. Os saudosistas dizem : " Noutros tempos isto não acontecia ! ". Os mais autoritários sonham com o regresso ao passado de mais de 34 anos.
Eu sei que vou a caminho dos 55 anos, se bem que em sonhos comece a pensar que são 57 !!! Deve ser Alzheimer precoce, que no entanto ainda não me afectou a memória.
E então voltei aos meus tempos de liceu. Outra vez ? Isso já não existe pá. Está bem, mas existia no meu tempo de miúdo e adolescente. Bem sei que não era frequentado por todos. A maioria, nesses tempos, tinha que se fazer cedo ao trabalho, que isso de estudar era um luxo e filhos de operários e criadas não o podiam suportar. Eramos filhos de gente de bem. De Doutores, de Arquitectos, de Médicos, de Engenheiros, de Quadros da Função Pública, de Militares. Tudo pessoal bem comportado.
Já me esqueci de quando no 1º ano do liceu, ainda em
Luanda, no Liceu Salvador Correia colocavamos baratas dentro do livro de ponto quando se tratava de uma professora mais assustadiça e jovem. Ou quando fazíamos corridas das mesmas ( baratas , mas vivas ) nos corredores entre as carteiras. E as vezes que o livro de ponto desaparecia ? Pena não haver telemóveis e Youtube.
Ou quando já, no
Liceu de Oeiras, no 2º ciclo, recebemos uma nova professora, que sabíamos ter enviuvado há pouco tempo, com um "Parabéns a você", logo no 1º dia de aulas. A professora saiu da sala lavada em lágrimas. Deu em suspensão colectiva de 3 dias e discurso do reitor Mexia aos prevaricadores. Ainda não havia essas modernices de
internet para as mostramos ao país. A sua divulgação era oral e ficava pelo liceu e familares preocupados com a nossa falta de respeito.
E o gozo que era colocar uma folha A4 , com um dizer insultoso (tipo "Sou burro" ), com um bocado de fita cola nas costas do professor de desenho do 2º ciclo.
E já nas aulas de 6º e 7º ano, de Matemática Moderna, aproveitando a surdez do saudoso Professor Silva Paulo ( que usava o típico aparelho sonoro com pilha num dos ouvidos ) contarmos anedotas em voz alta para fazer rir a turma toda e assim alguém conseguir ir para o olho da rua com uma falta de castigo, mesmo que não tivesse sido o engraçadinho.
Continuava a não haver nem videos, nem telemóveis, nem outras modernices.
E podia continuar o dia todo a contar histórias de como jovens de boas famílias se comportavam mal, no liceu ou fora dele. Como as então famosas 6ª feiras de Carnaval nos comboios da Linha do Estoril , cujas composições de Oeiras para Algés e para Cascais eram autênticos campos de batalha com ovos podres, fulminantes, garrafinhas de mau cheiro e tudo o resto. Como é óbvio o normal cidadão, que não fosse aluno do liceu , nem se atrevia a entrar no comboio. Esse era território dos
selvagens liceais. Até metia polícia e tudo.
E como é óbvio, nunca nenhum de nós falsificou a assinatura do pai ou da mãe nos pontos ( leia-se à moderna : testes ) que os professores nos pediam para eles ( pais ) assinarem para terem conhecimento da nota, geralmente quando era um medíocre ou um mau.
Querem que continue a falar dos tempos em que só havia meninos bem comportados e bons professores nos liceus ou já estão cansados de tanta javardeira ?
Por acaso ( ou não ) alguns deles são ou já foram governantes ou deputados da nação. Outros até serão chefes militares. Muitos são excelentes médicos, engenheiros, arquitectos, gestores de multinacioonais, etc, perante a incredulidade dos respectivos progenitores. E quase todos serão bons chefes de família. Pelos vistos as indisciplinas juvenis não causaram mal nenhum ao mundo. A sorte deve ter sido não haver, à época, telemóveis, videos, Youtube, internet e restantes modernices. As
selvajarias ficavam todas em família e dentro das paredes da sala de aula ou dos muros do liceu, excepto os ataques carnavalescos aos comboios.
Mas havia, como hoje, professores , alunos e encarregados de educação.
E havia como hoje
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