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03/01/16
11/11/15
In Flanders Fields - Lest We Forget
Poema de John McCrae
We are the Dead, short days ago
We lived, felt dawn, saw sunset glow,
Loved and were loved, and now we lie
In Flanders fields
30/09/15
Recordar Alexandre O'Neill
Eu sei em quem voto.
Mas parece que há muitos eleitores que ainda não sabem em quem votar ou se irão votar.
Os tempos de tentar convencer outros a votar em quem eu voto já se esgotou.
Falta-me a paciência.
Os argumentos da coligação PàF e dos seus apoiantes, mesmo os disfarçados de fazedores de opinião, são de tal maneira primitivos que apenas me apetece dizer:
- aos que pensam abster-se: fazem mal; bem sei que a participação cívica não se esgota no acto eleitoral, mas não existe democracia sem eleições e quem, como eu, participou nas eleições para a Constituinte de 1975, recordará esse dia como um dos mais belos da sua vida;
- aos que ainda não sabem em quem votar, e à falta de paciência para os convencer com argumentos racionais, ou outros, regresso a Alexandre O'Neill: "Ele não merece, mas vota no PS."
08/07/15
O liberalismo (Ortega y gasset)
"O liberalismo é o princípio de direito político segundo o qual o poder público, sendo não obstante omnipresente, se limita a si mesmo e procura, mesmo à sua custa, deixar lugar no estado em que ele impera para que possam viver os que nem pensam nem sente como ele, isto é, como os mais fortes, como a maioria. O liberalismo - convém recordar isto hoje - é a suprema generosidade: é o direito que a maioria outorga às minorias e é, portanto, o grito mais nobre que soou no planeta. Proclama a decisão de conviver com o inimigo; mais ainda, com o inimigo débil. Era inverosímil que a espécie humana tivesse chegado a uma coisa tão bonita, tão paradoxal, tão elegante, tão acrobática, tão antinatural. Por isso, não deve surpreender que essa mesma espécie pareça prontamente resolvida a abandoná-la. É um exercício demasiado difícil e complicado para que se consolide na terra.
Conviver com o inimigo! Governar com a oposição! Semelhante ternura não começa a ser já incompatível? Nada acusa com maior clareza a fisionomia do presente como o facto de irem sendo tão poucos os países onde existe a oposição. Em quase todos, uma massa homogénea pesa sobre o poder público e esmaga e aniquila todo o grupo opositor. A massa - quem o diria ao ver o seu aspecto compacto e multitudinário? - não deseja a convivência com o que não é dela. Tem ódio de morte ao que não é ela."
(in a "Rebelião das Massas", pág. 87 na edição da Relógio d'Água)Relembro, uma vez mais, a 1ª edição do livro de Ortega Y Gasset é de 1930!
03/07/15
Acabar com as discussões (Ortega y gasset)
"Ter uma ideia é crer que se possuem as razões dela, e é, portanto crer que existe uma razão, um mundo de verdades inteligíveis. Idear, opinar é a mesma coisa que apelar a tal instância, sujeitar-se a ela, aceitar o seu código e a sua sentença, crer, portanto, que o diálogo em que se discutem as razões das nossas ideias é a forma superior da convivência. Mas o homem-massa sentir-se-ia perdido se aceitasse a discussão e, instintivamente, repudia a obrigação de acatar essa instância superior que se situa fora dele. Por isso, o "novo" na Europa é "acabar com as discussões", e detesta-se qualquer forma de convivência que implique por si mesma acatamento de normas objectivas, desde a conversa no parlamento, passando pela ciência. Isto quer dizer que se renuncia à convivência de cultura, que é uma convivência sob normas, e se retrocede a uma convivência bárbara. Suprimem-se todos os trâmites normais e vai-se directamente à imposição do que se deseja."
(in "A Rebelião das Massas", pág. 85 na edição da Relógio D'Água)
Recordo: a primeira edição do livro é de 1930!
01/07/15
Civilização e barbárie (Ortega y gasset)
"Civilização é, antes de mais nada, vontade de convivência. É-se incivil e bárbaro na medida em que não se conte com os outros, A barbárie é tendência à dissociação. E assim todas as épocas bárbaras foram tempos de esbanjamento humano, pululação de grupos diminutos separados e hostis."
(pág. 87 de "A Rebelião das Massas", edição da Relógio d'Água)
Relembro: a primeira edição de "A Rebelião das Massas" apareceu em 1930.
Livro que, apesar do título, é sobre a Europa nesses anos entre guerras e já na antecâmara do fascismo.
Ou de como não aprendemos com os erros do passado.
Voltarei ao livro.
24/06/15
"O homem e o rio" (William Faulkner)
Comecei ontem a lê-lo.
Nº 1 da colecção "O livro de bolso" da Portugália Editora
Tradução de Luís de Sousa Rebelo e capa de Mário Henrique.
O ano da edição não vem indicado no livro, coisa muito comum em livros da "época", por época refiro-me aos anos 40 a 60 do século XX.
Custou 30 escudos.
O livro não é meu, foi-me emprestado pela minha sogra, e não sei localizar o ano da compra.
22/04/15
"Dão-nos um lírio e um canivete..."
Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
de Natália Correia
14/04/15
"As Vinhas da Ira": a 1ª edição foi a 14 de Abril de 1939
Reli o livro há umas semanas.
Foi como se o tivesse lido pela 1ª vez, ou seja, continuo fascinado.
O capítulo 3 é dedicado a um cágado e não resisto a transcrever o último parágrafo:
"Depois surgiu um caminhão ligeiro, e, ao aproximar-se, o motorista, vendo o cágado, desviou-se, no intuito de o atropelar. A roda da frente apanhou a orla da concha, atirou com o animal ao ar com a rapidez de um relâmpago e fê-lo rodopiar, como se fosse uma moeda, para fora da estrada. O caminhão manobrou, a fim de retomar a direita. Deitado de costas, o cágado manteve-se muito tempo dentro da concha. Mas, por fim, as pernas oscilaram no ar, à procura de uma coisa onde pudessem firmar-se. O pé dianteiro agarrou-se a um pedaço de quartzo e, pouco a pouco, o cágado conseguiu voltar-se. O pé de aveia brava desprendeu-se, deixando cair no chão três sementes. E, ao arrastar-se na descida da colina, a concha foi carreando estrume para as sementes. Depois, entrou numa estrada poeirenta, saracoteando-se e desenhando com a com a concha um trilho ondulado na poeira. Os olhos trocistas e experientes olharam em frente e boca, couraçada, abriu-se um pouco. Os dedos amarelos das patas soltaram uma camada de pó."
( in Colecção Mil Folhas, tradução de Virgínia Motta)
Terá John Steinbeck sido, noutra encarnação, um cágado?
Capa da 1ª edição
27/01/15
Holocausto e Cultura
Em Dia Internacional da Lembrança do Holocausto recordo as palavras de Jonathan Littell, autor de "Les Bienveillantes" (leitura que recomendo), numa entrevista ao Ípsilon (suplemento do Público) no dia 28 de Dezembro de 2007:
"A cultura não nos protege de coisa nenhuma. Os nazis são a prova disso. Pode sentir-se profunda admiração por Beethoven ou Mozart e ler o "Fausto", de Goethe, e ser-se uma porcaria de ser humano. Não existe ligação directa entre a cultura com C maiúsculo e as opções políticas."
31/12/14
30, hoje e 1
"Aprendeu algumas palavras de tâmul e de bengali e era capaz de pedir comida e alojamento em hindi quando necessário, e de ler um pouco e pedir informações. A palavra que significava ontem era a mesma que significava amanhã."
( in "Os Nomes", pág. 291, de Don Delillo, Colecção Mil Folhas)
28/11/14
P.D. James (1920-2014)
Morreu ontem, aos 94 anos.
O "seu" inspector Adam Dalgliesh fica na galeria dos muitos inspectores policiais..
E Phyllis Dorothy (daí o P.D.) é mais que uma escritora de romances policiais.
Gostei muito do "Time to be in Earnest - A fragment of autobiography" (editado pela Faber and Faber Limited, em 1999).
25/08/14
Mentira
"Eu não chegaria ao ponto de andar à pancada por causa do Kurtz, mas andei perto de mentir. Sabem como eu odeio a mentira, não porque seja mais honesto que os demais, mas apenas porque me apavora. Há um toque de morte, um sabor a mortalidade na mentira, que é precisamente o que eu odeio e detesto no mundo - o que eu quero esquecer. Põe-me infeliz e doente, como se tivesse comido alguma coisa podre."
(Joseph Conrad, pág 43 de "O Coração das Trevas", Colecção Mil Folhas, tradução de Teresa Amaro)
06/06/14
Um tribunal (mesmo o Constitucional) só "se pronuncia quando há litígio"
já dizia o bom do Alexis de Tocqueville na página 140 do "Democracia na América", editado pela Principia.
Isto depois de dizer:
"Em todos os povos, a primeira característica do poder judicial é a de servir de árbitro. Para que o tribunal intervenha é preciso que haja um litígio."
"A segunda característica do poder judicial é de se pronunciar sobre casos particulares, e não sobre princípios gerais."
"A terceira característica do poder judicial é a de só actuar quando para tal é solicitado ou, segundo a expressão legal, quando a ele se apela."
E concluir, como dito acima:
"Os Americanos mantiveram estas três características do poder judicial. O juiz americano só se pode pronunciar quando há litígio. Ocupa-se sempre de um caso particular e, para poder actuar, deve sempre espera que recorram a ele. Portanto, ele assemelha-se perfeitamente aos magistrados das outras nações. Contudo, detém um enorme poder político."
E depois interroga-se:
"Qual a sua origem? Se ele se move dentro do mesmo círculo e se serve dos mesmos meios que os outros juízes, por que razão possui um poder que os outros não têm?"
Para a seguir explicar:
"O motivo reside num único facto: os Americanos reconheceram aos juízes o direito de fundamentarem as suas deliberações baseando-se mais na Constituição do que nas leis. Por outras palavras, permitiram-lhes não aplicar as leis que lhes parecessem inconstitucionais."
Pois, António, dirão os meus distintos leitores (if any), mas isso é a América de 1835 vista pelos olhos de um francês.
Será, direi eu que não sou jurista nem de café, mas que dá para reflectir lá isso dá, nomeadamente e para o caso actual em Portugal:
- O Tribunal Constitucional só actuou porque houve um litígio e alguém (deputados, Provedor de Justiça e até o Presidente da República em 2013, que não agora) solicitou que se pronunciasse sobre o litígio.
- A Constituição é a 1ª lei do país e é ela que permite que não se apliquem leis inconstitucionais.
18/04/14
22/12/13
José Rodrigues Miguéis, 1958 - Lisboa
Dedicatória de José Rodrigues Miguéis (1901 - 1980) ao meu sogro José Mariano Alves da Encarnação (1924 - 1984), em 1º plano na foto, Lisboa - 1958.
07/11/13
Albert Camus nasceu a 7 de Novembro de 1913
Paris, juin 59.
"J'ai abandoné le point de vue moral. La morale mène à l'abtraction et à l'injustice. Elle est mère de fanatisme et d'aveuglement. Qui est vertueux doit couper les têtes. Mais que dire de qui professe la morale, sans pouvoir vivre à sa hauteur. Les têtes tombent et il légifère, infidèle. La morale coupe en deux, sépare, décharne. Il faut la fuir, accepter d'être jugé et ne plus juger, dire oui, faire l'unité - et en attendant, suffrir d'agonie."
(págs. 268/9 - Carnets III - Éditions Gallimard)
24/04/13
Um livro de contos de Primo Levi
21 contos, todos com nomes de elementos químicos, a profissão de Primo Levi.
Todos admiráveis.
Nas palavras do autor:
"...isto não é um tratado de Química" e
"não se trata sequer de uma autobiografia",
"é ou quereria ser, um micro-história, a história de um ofício e das suas derrotas, vitórias e infelicidades, que desejamos contar quando sentimos que está próxima a conclusão do círculo da nossa própria carreira e a arte já não é longa."
O 16º conto ("Azoto") começa assim:
"...E veio enfim o cliente desejado, aquele que pretendia de nós um parecer. O parecer é o trabalho ideal, aquele de onde se retira prestígio e dinheiro sem sujar as mãos nem partir a espinha, sem correr o risco de ficar torrado ou intoxicado. Basta apenas tirar o avental, pôr a gravata, ouvir atentamente e em silêncio o problema em questão para nos sentirmos como o oráculo de Delfos. Em seguida, deve pensar-se bem a resposta e formulá-la numa linguagem velada e esbatida par que o cliente por sua vez também nos reconheça como um oráculo digno da sua confiança e das tabelas estabelecidas pela Ordem dos Químicos."
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