25/02/08

O que não se aprende na escola ( I ) : Avaliação

Em certo período da minha vida profissional trabalhei, como consultor de redução de custos, numa empresa de origem norte-americana que operava na Europa. Antes já tinha trabalhado em 5 empresas, uma das quais francesa e fora de Portugal. Logo no processo de selecção apercebi-me de uma realidade distinta na forma como a empresa lidava com os empregados. Tratavam-nos como adultos. Assim depois de nos explicarem, nas entrevistas de selecção, o que faziam e o que pretendiam de nós entregavam-nos os manuais com as regras da empresa, as perspectivas de carreira com o respectivo procedimento de avaliação e ainda o código de conduta. Diziam-nos para os lermos com atenção e caso os aceitassemos assinaríamos o contrato. Na certeza porém que uma vez assinado sabíamos ao que íamos. Assim fiz. Trabalhei como consultor 4 anos, nos mais variados países europeus.
Foi a primeira ( e única ) vez que trabalhei numa empresa que tinha um processo de avaliação dos funcionários. Como calculam a resistência e dificuldade da maioria dos consultores ( que não só os portuguese, mas também os restantes europeus que trabalhavam nas equipas de análise ou de projecto ) era muita. A avaliação exigia tempo, fosse no preenchimento de papéis ( as fichas de avaliação e plano de formação do avaliado ) fosse no trabalho de campo que os avaliadores ( que exerciam tarefas de chefia ) tinham de fazer. E para quem trabalhava deslocado nas instalações dos clientes e vivia em hotéis, podem calcular que não era o que mais me apetecia fazer ( como avaliador quando fui Director de Projecto ou Coordenador dos mesmos ) no fim do dia. Mas era um S.O.P. ( Standard Operating Procedure )...como tal tinhamos que o fazer. Ponto. Ao fim de algum tempo, além de rotinados apercebíamo-nos que havia dois benefícios : um na carreira ( ou seja euros, que ainda não existiam na altura ) outro por ficarmos a conhecer os pontos fracos e fortes de cada um dos avaliados e assim quando necessitava de alguém com determinadas características num projecto era mais fácil escolher o consultor que mais se adequava ao que eu, como Director de Projecto, necessitava.
Hoje, passados que vão 17 anos desde que saí da empresa, ainda tenho cá em casa os manuais, que continuam a ser de grande utilidade e recordo com prazer os quatro anos em que trabalhei como consultor.
O que aprendi com essa experiência é que sem definição de expectativas quer para o empregador quer para o empregado e sem um processo de avaliação , a motivação é menor e a sensação de injustiça , arbitrariedade e inutilidade também.
À época, a única experiência de avaliação por que tinha passado era a escolar ( no percuso tradicional : primária, liceu, universidade ) com as limitações conhecidas ( percepcionda pelos avaliados como um processo de punição/ recompensa ) e a sua ausência nas 5 empresa pelas quais tinha passado. Por isso o que mais surpreendeu foi a forma como a avaliação era encarada pela empresa de consultoria : um processo para identificar os nossos pontos fortes ( para os reforçar ) e os nosso pontos fracos ( para os corrigir ). Como tal, após a avaliação e respectiva classificação era dever do avaliado melhorar os pontos fracos e um direito exigir às suas chefias o treino adequado.
Por isso não me espanta a resistência que muitos professores estão a colocar ao respectivo processo de avaliação. Já me espanta quererem adiá-lo, numa tentativa óbvia por parte dos sindicatos de imporem outra agenda e esta passar para as calendas. Mais me espanta é "queixarem-se" de que exige muito trabalho, o que não deixa de ser estranho quando alguns dizem que já havia um processo antes...pelos vistos dava era pouco trabalho, ou seja não existia.
Foto de C. : Pousada de Estremoz

6 comentários:

expressodalinha disse...

Então, mas não era suposto serem todos bons?

Anónimo disse...

Curioso. Trabalho numa empresa bem portuguesa há 38 anos e quando fui admitida já havia um sistema de avaliações. Dura até hoje - com uma interrupção durante os anos conturbados de 74 a 80. Faz parte da cultura da empresa... nem os sindicatos hoje o contestam... e os trabalhadores podem sempre discordar e até provar que o avaliador não tem razão.
... sinceramente ... "tanto barulho para nada"!

Anónimo disse...

Se há coisa que recordo da minha esola primária é exactamente as fichas que usávamos para fixar os nossos objectivos semanais (4 cópias, 3 ditados, 5 problemas, ...) e auto-avaliarnmos resultados (pintávamos quadrados, à medida que executávamos e fazíamos gráficos com as notas e o o nível de cuprimento). Entendo que este processo me preparou para a auto-exigência e auto-avaliação, permitindo melhorar o meu desempenho escolar e profissional. Também tenho sido avaliada nos diversos locais de trabalho por onde tenho passado (umas vezes de uma forma mais completa, outras de uma forma mais light, ...) e considero que é essencial para nos aprecebermos do que poderemos melhorar. E também me custa muito entender esta resistência dos professores ao processo de avaliação ... como já me tinha custado entender a resistência às aulas de substituição. Parece que já houve um debate por aí, mas aqui só será visto amanhã. São os tais 8.000 km a que está Maputo!! Paula

Professor João disse...

Total equívoco! Os professores não estão contra a avaliação.

1º) Sempre fui avaliado de forma informal, pelos alunos e pelos pais. Trabalho há 20 anos na cidade do interior onde nasci e onde quase toda a gente se conhece. Sei que o que digo na sala de aula é repetido ao jantar em 15 ou 20 famílias. Fui aluno de alguns que são agora meus colegas e fui professor de outros que também agora são meus colegas. Por isso conhecemos as qualidades e defeitos uns dos outros. A crítica social, positiva e negativa, daqueles com quem nos cruzamos na rua, no café ou no local de trabalho, têm tanto ou mais valor que uma notação no processo individual.

2º) Sempre fui avaliado formalmente, pelo relatório anual da minha actividade e pela frequência das acções de formação.

3º) Eu e muitos não estamos contra a avaliação mas sim contra ESTA proposta de avaliação. Para quem tem experiência, agradeço que me esclareça como é possível:
- mensurar de forma objectiva, numa escala de 1 a 5, itens como “Empenho na realização das tarefas” ou “Disponibilidade”?
- implementar um sistema de avaliação que vai decidir a progressão na carreira não de 120 trabalhadores de uma empresa mas sim de 120.000?
- que 10% da avaliação dependa do “nível de sucesso dos alunos”, independentemente das suas condições sociais, da sua recusa em trabalhar com afinco, do seu esquecimento que tinham um teste marcado e por isso não estudaram nada?
- que apesar do reconhecimento tardio dos erros recentes no concurso para professor titular, a Ministra da Educação teime na urgência de implementação imediata de um processo de avaliação, antes mesmo do Conselho Científico constituído para validar esse processo nem sequer estar constituído e a funcionar?

Por isso reafirmo, está-se a brincar com coisas muito sérias.

Anónimo disse...

"...a forma como a avaliação era encarada pela empresa de consultoria : um processo para identificar os nossos pontos fortes ( para os reforçar ) e os nosso pontos fracos ( para os corrigir ). Como tal, após a avaliação e respectiva classificação era dever do avaliado melhorar os pontos fracos e um direito exigir às suas chefias o treino adequado."

É inegável que a avaliação é imprescindível para a evolução de qualquer profissional em qualquer área. No caso dos professores, não existia uma avaliação formal efectiva, mas antes uma avaliação de fachada que consistia na entrega de um relatório no final do ano lectivo, invariavelmente “corrido” a SATISFAZ por uma suposta comissão avaliadora. Contudo, defendo que a avaliação, tal como está descrita pelo autor deste blog, deve ser utilizada como um meio para melhorar o desempenho e, consequentemente, os resultados. Por isso, não posso concordar com o sistema de avaliação que se impõe agora aos professores (acerca do qual toda a gente opina, mesmo que não o conheça), ou seja, uma avaliação aplicada não como um meio, mas como um fim em si, uma avaliação que é criada só porque tem que haver um sistema de avaliação. É que, além de ter um carácter eliminatório (e não formativo), esta avaliação não garante que sejam os melhores profissionais a obter melhor classificação, mas sim aqueles que melhor conseguirem iludir através dos processos burocráticos.

Há coisas que não fazem sentido e que já foram apontadas inúmeras vezes, como, por exemplo, colocar um professor de Informática a avaliar um professor de Biologia, ou seja, o avaliador poderá não ter preparação para ajudar a corrigir os pontos fracos do avaliado.

Uma outra questão é a forma como se estão a definir objectivos. Como é lógico, os objectivos devem ser definidos tendo em conta o contexto em que se vai actuar. Ora, não é isso que está a acontecer. Por exemplo, a escola onde lecciono este ano definiu automaticamente que o objectivo de cada professor é baixar a percentagem de negativas dos seus alunos em 2% relativamente à percentagem do ano lectivo passado nesse ano de escolaridade. Como foi possível definir um objectivo desta forma, sem que se tenha comparado estes alunos com os que no ano passado frequentaram esse ano de escolaridade? É que não estamos a falar de simples matéria-prima mas sim de seres humanos (os alunos). Se os alunos que estão este ano no 8º ano, por exemplo, não tiverem características que permitam desenvolver um trabalho melhor em 2% do que os alunos que no ano passado frequentaram o 8º ano, o professor será prejudicado na sua avaliação se for honesto na atribuição das notas, ou então será beneficiado se “forçar” a subida dessas notas. Aliás, é o que me parece mesmo ser o objectivo da política educativa deste governo: “forçar” a subida das notas a qualquer custo, independentemente de corresponderem à realidade em termos de competências, capacidades e conhecimentos, desenvolvidos pelos alunos.

Poderia escrever muito mais sobre isto, mas vou acabar com uma referência ao “treino adequado” que as “chefias” deveriam providenciar. É que, em 7 anos de exercício como professor, nunca tive possibilidade de acesso a formação na minha área específica, apesar de a ter já solicitado por escrito aos centros de formação para professores responsáveis pela formação no distrito em que dou aulas. E para frequentar formação em locais geograficamente afastados teria que faltar a aulas, algo que não faço.

Desculpe o desabafo: mas estou a ficar cansado de ser o bode expiatório do estado em que está a educação neste país e, principalmente, farto de ser olhado de lado por pessoas que, não sabendo nada acerca da qualidade do trabalho que desenvolvo, sabem apenas que sou professor.

NoKas disse...

1. Infelizmente, um professor quando sai das aulas não sai do trabalho... o trabalho de bastidores é imenso... Portanto não concordo que eles não tenham mais nada do que fazer, entre projectos educativos obrigatórios e coisas bonitas que têm que ser enviadas para que a UE tenha belos nºs, como aulas extra e actividades extra-curriculares, e formação a que são obrigados a assistir para terem créditos, mesmo se as formações que estão disponíveis são da treta... efim...

2. Os professores não têm manual... foi-lhes pedido que criassem "instrumentos de avaliação"... e não são de auto-avaliação, são antes de avaliação dos colegas....

3. Os próprios inspectores, que, segundo o meu ponto de vista, teriam competência para fazer tal avaliação, dizem não ter capacidade de respostas a tais critérios impostos pelo ministério

4. A avaliação deveria ser feita por alguém que pudesse dedicar-se a esta situação... mas de novo, os professores designados, para assistirem a aulas ( e tem obviamente que ser mais do que uma aula), têm deixar de dar as suas... o que deixa os míudos sem professor! Mais uma vez não faz muito sentido!

5. Não faz sentido nenhum existirem cotas... pois! É que só x nº de professores podem ter determinada "avaliação"... se todos na escola forem bons, temos que pedir ao que não é tão bom, mesmo que respeite todos os critérios, para ser suficiente! Sendo a avaliação feita por um colega... bom, é só imaginar o belo clima de trabalho que poderá surgir! Para não falar na pessoa lesada em termos profissionais!

Os professores não são patarecos... Todos nós tivemos bons e maus professores, mas eu não creio que a grande maioria esteja contra a ministra porque sim, porque foram incitados ou porque é "porreiro" dizer que o governo não presta.

Além disso a avaliação é só mais um ponto com o qual os professores não concordam com a Ministra da Educação. Pensemos nos concursos que só abrem de 3 em 3 anos... sim, se um algarvio for parar a Trás-os-Montes, só passados 3 anos é que pode voltar a tentar concorrer para ficar perto de casa, porque as permutas não são fáceis.

Não, não sou professora! Sou ainda estudante! Este assunto não me afecta a mim, mas não gosto do estado em que está o meu país!