21/03/08

Quando não havia telemóveis, Youtube e quejandos, nem na escola nem fora dela

O alarido que para aí vai por causa de uma cena numa sala de aulas num liceu ( desculpem é da idade ) do Porto. Deu abertura nos tele-jornais. Entrevistas a especialistas e sindicalistas. Os blogues passam o video. Os comentários são mais que muitos. E tudo porque uma aluna que tinha o telemóvel ligado recusou-se a dá-lo à professora e esta qual jovem colega da dita comporta-se à altura. Pareciam duas crianças a disputarem um brinquedo. Outra filmou e pôs a cena no Youtube. Sucesso garantido. Top de audiências.
" Já não há autoridade !", clamam uns. Outros dizem : " Ao que chegou a escola pública!". Os mais radicais culpam a ministra pela ocorrência e quase exigem a sua demissão. Os saudosistas dizem : " Noutros tempos isto não acontecia ! ". Os mais autoritários sonham com o regresso ao passado de mais de 34 anos.
Eu sei que vou a caminho dos 55 anos, se bem que em sonhos comece a pensar que são 57 !!! Deve ser Alzheimer precoce, que no entanto ainda não me afectou a memória. E então voltei aos meus tempos de liceu. Outra vez ? Isso já não existe pá. Está bem, mas existia no meu tempo de miúdo e adolescente. Bem sei que não era frequentado por todos. A maioria, nesses tempos, tinha que se fazer cedo ao trabalho, que isso de estudar era um luxo e filhos de operários e criadas não o podiam suportar. Eramos filhos de gente de bem. De Doutores, de Arquitectos, de Médicos, de Engenheiros, de Quadros da Função Pública, de Militares. Tudo pessoal bem comportado.
Já me esqueci de quando no 1º ano do liceu, ainda em Luanda, no Liceu Salvador Correia colocavamos baratas dentro do livro de ponto quando se tratava de uma professora mais assustadiça e jovem. Ou quando fazíamos corridas das mesmas ( baratas , mas vivas ) nos corredores entre as carteiras. E as vezes que o livro de ponto desaparecia ? Pena não haver telemóveis e Youtube.
Ou quando já, no Liceu de Oeiras, no 2º ciclo, recebemos uma nova professora, que sabíamos ter enviuvado há pouco tempo, com um "Parabéns a você", logo no 1º dia de aulas. A professora saiu da sala lavada em lágrimas. Deu em suspensão colectiva de 3 dias e discurso do reitor Mexia aos prevaricadores. Ainda não havia essas modernices de internet para as mostramos ao país. A sua divulgação era oral e ficava pelo liceu e familares preocupados com a nossa falta de respeito.
E o gozo que era colocar uma folha A4 , com um dizer insultoso (tipo "Sou burro" ), com um bocado de fita cola nas costas do professor de desenho do 2º ciclo.
E já nas aulas de 6º e 7º ano, de Matemática Moderna, aproveitando a surdez do saudoso Professor Silva Paulo ( que usava o típico aparelho sonoro com pilha num dos ouvidos ) contarmos anedotas em voz alta para fazer rir a turma toda e assim alguém conseguir ir para o olho da rua com uma falta de castigo, mesmo que não tivesse sido o engraçadinho.
Continuava a não haver nem videos, nem telemóveis, nem outras modernices.
E podia continuar o dia todo a contar histórias de como jovens de boas famílias se comportavam mal, no liceu ou fora dele. Como as então famosas 6ª feiras de Carnaval nos comboios da Linha do Estoril , cujas composições de Oeiras para Algés e para Cascais eram autênticos campos de batalha com ovos podres, fulminantes, garrafinhas de mau cheiro e tudo o resto. Como é óbvio o normal cidadão, que não fosse aluno do liceu , nem se atrevia a entrar no comboio. Esse era território dos selvagens liceais. Até metia polícia e tudo.
E como é óbvio, nunca nenhum de nós falsificou a assinatura do pai ou da mãe nos pontos ( leia-se à moderna : testes ) que os professores nos pediam para eles ( pais ) assinarem para terem conhecimento da nota, geralmente quando era um medíocre ou um mau.
Querem que continue a falar dos tempos em que só havia meninos bem comportados e bons professores nos liceus ou já estão cansados de tanta javardeira ?
Por acaso ( ou não ) alguns deles são ou já foram governantes ou deputados da nação. Outros até serão chefes militares. Muitos são excelentes médicos, engenheiros, arquitectos, gestores de multinacioonais, etc, perante a incredulidade dos respectivos progenitores. E quase todos serão bons chefes de família. Pelos vistos as indisciplinas juvenis não causaram mal nenhum ao mundo. A sorte deve ter sido não haver, à época, telemóveis, videos, Youtube, internet e restantes modernices. As selvajarias ficavam todas em família e dentro das paredes da sala de aula ou dos muros do liceu, excepto os ataques carnavalescos aos comboios.
Mas havia, como hoje, professores , alunos e encarregados de educação.
E havia como hoje " Quem não se desse ao respeito..." (clicar)

7 comentários:

maria disse...

É bem verdade o que diz. Também me lembro de histórias e partidas que fazíamos aos professores e sempre íamos até onde nos deixavam ir ou até onde sabíamos que era razoável ir. Mas não dizíamos asneiras, palavrões ou insultos aos professores.Agora as crianças, nem todas felizmente, parece que não sabem onde devem parar. E, por outro lado, as coisas que acontecem saem realmente para o exterior e tomam outra dimensão ao serem divulgadas como este triste vídeo.Tive bons professores e outros nem tanto, estes tiveram a sorte de não haver telemóveis na altura e de a sua palavra ter mais poder que a dos alunos.

Maria do carmo disse...

Inteiramente de acordo com tudo o que diz sobre as falhas no bom comportamento de alunos e professores. Sempre houve bons e maus professores, os que eram respeitados e outros nem tanto. Apenas uma discordência. Tenho 56 anos, também frequentei o liceu, o meu pai era uma pessoa de bem, mas era um operário, assim como eram os pais da maioria dos meus colegas.

António P. disse...

Boa noite Maria do Carmo,
haveria filhos de operários no liceu, mas a maioria não chegava lá como saberá, se bem que a nossa geração tenha começado a "apanhar" o que é o início da abertura da escola pública.
Bom fim de semana.

Boa noite Maria,
Acho que a crueldade de cantar os "Parabéns a você " a uma professora que tinha acabdo de enviuvar é de uma violência extrema.
O que eu queria destacar é que atitudes de indisciplina sempre existiram. Bons e maus profs e alunos também.
A situação actual ( ou antes com a democracia ) é de que agora todos ( felizmente ) têm acesso à escola e como tal há alunos que não têm uma retaguarda familiar que os possa ajudar e como tal à escola.
Mas antes isso do que se ir trabalhar com 10, 12 ou 15 anos como acontecia nos anos 60 e antes.

Bom fim de semana

Cristina disse...

sem tempo para ler...só Boa Pascoa, beijos e doces. Muitoooos :)

Luisa TM disse...

"As selvajarias ficavam todas em família e dentro das paredes da sala de aula ou dos muros do liceu, excepto os ataques carnavalescos aos comboios".
Não se pode comparar as ditas selvajarias de corridas de baratas ou garrafinhas de mau cheiro ou mesmo de cantar os parabens a uma professora recentemente enviuvada com uma agressão a um professor!
Ainda que as referidas brincadeiras de mau gosto, sejam, realmente, de mau gosto, em nada são comparáveis à falta de respeito e verdadeira selvajaria que infelizmente vimos acontecer há dias atrás.
E, ainda bem que há telemóveis e youtube porque de outra maneira nunca se saberia o que passa pela cabeça, não só, de uma jovem estudante que agride uma professora, mas também pela cabeça de todos os seus colegas coniventes com o lamentável acto.

Tiago Carvalho disse...

Pois é, muita coisa se fazia aos professores, agora é diferente, acho que há falta de imaginação, não vejo os alunos a fazerem muito dessas coisas. É mais as cenas do telemóvel (estão mais tempo a enviar mensagens) e não nos ligam nenhuma (também não dizemos nada de interessante), qualquer dia podemos dar aulas em casa a enviar mensagens para os nossos alunos, é bem mais divertido e os resultados eram melhores. Acho que nós, os professores, devíamos ser avaliados com os filmes que estão no youtube em vez de teremos lá um marmanjo assistir à aula, até estão lá os momentos mais ricos das aulas, os mais dramáticos e divertidos.

Anónimo disse...

O exercício que efectuou, eu também já o fiz. Lembro-me perfeitamente dos desvarios e coisas que fizemos. Algumas delas eram perfeitas selvajarias! Tenho 33 anos e sou já um filho da revolução.
Tive a minha formação num colégio privado onde ainda aplicavam o tipo de ensino das décadas anteriores.
Portanto só posso concordar consigo.
Existe no entanto duas importantes reservas ao que afirma. Primeiro não me recordo nunca de ter visto um aluno sequer fazer frente fisicamente a um professor. Assumo que possa ter sido sorte minha.
Mas o fundamental é que, se é verdade tudo o que diz sobre a gravidade do que fazíamos, também é verdade que nesse tempo esses mesmos professores 'abusados', ou o conselho directivo por eles, eram extremamente rígidos na aplicação de repreensões.
Nós podíamos fazer do pior que nos lembrássemos, mas sabíamos que no próprio momento, ou no seu seguimento, íamos ser castigados por isso.
Não havia complicações burocráticas ou processos complexos, o assunto era prontamente resolvido com um par de estalos e uma expulsão da aula. Para os casos mais extremos foram aplicadas expulsões da escola que eram vergonhosas.
Para mim, é isto que faz toda a diferença entre a realidade actual e o que tivemos. É este alias o fundamento mais básico de qualquer educação e se quisermos de um sistema de direito.
É isto que esta a falhar.

AAS