09/02/11

Gerações rascas, parvas e as outras ou a história do juíz que dizia que a puta era uma mulher de vida fácil

Nunca gostei muito da expressão " a minha geração". Sei lá porquê. Se calhar até sei. Acho mais castiça e adequada a expressão " os da minha criação". Bem sei que não somos galináceos,  mas assim sei quais foram os que comigo fizeram o mesmo percurso na infância e na adolescência. Para quem nasceu nos anos 50, como eu,  os da minha criação eram geralmente os  do  meu estrato social, ou melhor do dos meus pais e restante família. É que ainda não havia cá isso de ensino para todos e obrigatório até ao 12º ano e muitos da "minha geração", que não da minha criação, tinham que ir trabalhar aos 10 anos, pois o  que o pai trazia para casa não chegava para a família comer. Passemos adiante que isso são detalhes que não interessam para nada.
Depois da geração rasca chega agora a geração parva que até já tem um hino composto pelos Deolinda ( ou será pela ?). É a dos jovens, agora quase todos licenciados, que têm uma vida muito difícil. Se calhar gostariam de ter a vida fácil da puta que  quando, em tribunal, o Sr. Dr. Juíz lhe disse : " A senhora de vida fácil que se levante",  ela respondeu : " Ó Sr. Dr. Juíz acha que é vida fácil ter de fazer um bro**e à s 3 da manhã ? "
Sempre fomos um país de choramingas mas francamente, hoje em dia, estamos a abusar. Pena não ter sido jovem licenciado nos tempos que correm. Teria um hino e podia chorar nas televisões mesmo não indo ao "Big Brother" e não sendo fazedor de opinião encartado.
No meu tempo de jovem licenciado ( engenheiro ), em finais dos anos 70 do século XX, o meu primeiro salário foi de 70 ( setenta ) euros mensais. Bem sei que tinha dia de férias no meu aniversário e transportes rodoviários de borla já que trabalhava na R.N. Só regalias. E já havia duas crianças lá por casa. E ia para o escritório de autocarro, mas como era da Carris...pagava. Toma que é para aprenderes que  nem tudo é de graça. Carro próprio ??? Isso foi um luxo alcançado 2 anos mais tarde. Um 2 Cavalos, meio podre, comprado a um amigo por 20 contos   (100 €).
Para melhorar o salário passei a ter que me levantar à 6 da manhã e chegar a casa às 7 da tarde ou mesmo às 8. Vantagens de trabalhar em estaleiros navais na cintura industrial  de Setúbal e de se demorar, na camioneta da empresa, uma hora à ida e mais uma hora e meia (pelo menos) à volta, dependente dos engarrafamentos na A2 , que então chegava só até ao Fogueteiro, e nos acessos a Alcântara. E antes que me esqueça, no dia que entrei, a empresa foi declarada em situação económica difícil. Resultado : salários em atraso logo à cabeça. Bela estreia, disse para os meus botões e comecei logo a procurar outro emprego. E já estávamos em 1981. Mal via as filhas. Quando saía de casa ainda dormiam, quando chegava já estavam a deitar-se.
Ainda melhorei o salário outra vez,  mas continuando na ferrugem ou seja em fábricas com operários dos verdadeiros, de fato de macaco e a cheirarem a suor. Agora no Barreiro ( mais uma cintura industrial ), numa Central Térmica da EDP, mas as horas de alvorada e de chegar a casa melhoraram só cerca de meia hora. E tinha também a electricidade mais barata. Nunca consegui perceber porquê mas até deu para modernizar os electrodomésticos lá de casa e comprar um fogão fifty-fifty, ou seja metade dos bicos eram a gás e a outra metade a electricidade. Entretanto a prole aumentou. Mais uma menina. Total : 3 meninas. Lá haveria de me desenrascar, mais a minha Maria , abre parêntese : que não era licenciada mas trabalhava (!!) e até fez o curso do Magistério Primário já casada e com duas filhas , ainda foi professora primária, depois deixou-se disso mas burra continou a trabalhar fecha parêntese , para as alimentar e educar.
Depois emigrei. Desta vez o salto no salário foi significativo e lembro-me de, na entrevista de selecção, o francês que me entrevistou ( a empresa era francesa ) me perguntar : " Mas António, tão novo e com 3 filhas porquê querer ir trabalhar para fora ?" Ao que  respondi . " Hoje mal as vejo assim continuo sem as ver mas ao menos vou ganhar algum para que as possa ajudar." Acho que foi por causa disso que me contratou. Estavamos em 1984. Fui para a Arábia Saudita. Durante 2 anos vinha a casa de 3 em 3 meses para estadias de 2 semanas. Não enrequeci e não chorei. Mas consegui o que pretendia para mim , para a minha Maria e mais importante para as minhas filhas.
 Bem, a história já vai longa e os leitores que aguentaram até ao parágrafo anterior não devem estar muito interessados que eu continue a  contar a minha vida até aos dias de hoje. Fazem bem. Para abreviar informo-os que voltei da Arábia Saudita com 33 anos e depois ainda andei por fora ( 4 anos, em que só vinha a casa aos fins de semana) , voltei a regressar, bla, bla , ainda voltei a ter salários em atraso ( foi em 1987 e até era chefe de estaleiro de montagem de uma caldeira, grande título e o 1º ministro não era o actual ) , bla, bla . Deixei de exercer engenharia, se é que alguma vez a exerci, e vai para 12 anos que tenho uma nano-micro empresa.
Continuo a não chorar e para aqueles que estarão preocupados com o que aconteceu às minhas filhas direi que estão umas moçoilas sadias e independentes ( de 36, 31 e 27 anos) mas vivem todas em pecado ou seja amancebadas apesar de licenciadas. Antes isso do que parvas ou rascas. Com mais ou menos recibo verde com mais ou menos precaridade, mas também não choram. Saiem ao pai.
E last but not least já me "deram" duas netas. Mas que grande gineceu. Pois é.
Pois é, é apenas uma história ou parte dela. Outros da minha criação terão as suas. Diferentes ou iguais mas quase todas sem facilidades.
Só os rascas e parvos é que podem pensar que a vida é fácil ou então os juízes que julgam as putas.
Boa noite e durmam bem.

7 comentários:

Helena disse...

Olá António,
isto tem tanto para conversar, que até me apetecia marcar um cafézito consigo ali para os lados de Estremoz.

Essa história da puta, ouvi-a um bocadinho diferente:
Juíz: A senhora de vida fácil...
Puta: Venha o senhor juíz fazer o que eu faço, e já me dirá que é vida fácil!
(vai dar ao mesmo, é verdade, mas gosto muito desta nuance de meter o juíz na pele da puta)

A única coisa que me parece faltar a esta análise é referir o "chico-espertismo" das empresas hoje em dia, que recorrem sucessivamente a estagiários gratuitos para terem o trabalho feito sem terem despesas com pessoal. Outro dia diziam-me que os licenciados em jornalismo se arrastam de estágio não remunerado em estágio não remunerado, sempre na esperança de terem finalmente uma oportunidade.
Se é mesmo verdade que as empresas começaram a contar com esta mão-de-obra gratuita como elemento estrutural dos seus custos, algo vai muito mal em Portugal.
Acho bem que os jovens se ponham a andar para o estrangeiro (até escrevi um post sobre isso) mas convinha também pensar se é saudável para Portugal que as melhores cabeças emigrem. E é evidente que são os melhores quem vai sair.
(ah, tem graça, acabei de lhe fazer um elogio por tabela...)

Outra coisa: um dia que lhe nasça um neto, vai desconfiar que não é seu? ;-)
(na família do meu marido é ao contrário: só nasciam rapazes. Três irmãos casaram e tiveram dois deles tiveram três rapazes e um um rapaz e uma rapariga. A galhofa que foi naquelas famílias quando a menina nasceu...

Helena disse...

e se eu relesse os comentários antes de os publicar? boa ideia, não era? desculpem a formulação da última frase, cheia de asneiras.

António P. disse...

Bom dia Helena,
Por pontos .
1.Quanto ao café ali para os lados de Estremoz ...é só apanhar o avião. Parece que o aeroproto de Beja vai começar a funcionar em breve.
2.Quanto ao elogio agradeço mesmo que tenha sido involuntário :))
3. As anedotas têm sempre variantes umas mais de salão outra mais ordinárias.
4. Na minha história , que não análise , não falta só uma coisa faltam muitas...mas o meu ponto é que hoje será a "chico-espertice" das empresas e ontem foi outra coisa qualquer e as dificuldades estão lá e há que ir à luta e não andar sempre a chorar como um coitadinho para que tenhamos pena dele.
Faz-me , por ex., impressão a conversa dos coitadinhos que têm que ir trabalhar para o estrangeiro e que o Governo tem que criar empregos para eles em Portugal !!!?? É de uma reacionarice impressionante.
5. Quanto ao neto : não depende de mim :)) Se vier é bem vindo :))
Beijos

Galeota disse...

É evidente que no passado(antes do 25 de Abril) houve vidas muito penosas. Estamos contudo, numa conjuntura europeia muito complicada a nível do desemprego.
Não se esqueça que a Europa está sem rumo firme no sistema económico, financeiro e fiscal.
Em Portugal esta situação europeia reflecte-se também no desemprego, sobretudo nos jovens. Mas há esperança:os números das nossas exportações estão a crescer e esse facto possibilita-nos olhar para o nosso cescimento económico com mais optimismo.

Anónimo disse...

É assim mesmo António. Estou farto de ouvir choraminguices sobre os coitados dos jovens licenciados precários. É que já não há pachorra! São jovens, com saúde e força, o mundo é deles só têm é que o conquistar.
Tenho pena é de nós, já um bocado velhos, a quem ninguém dará emprego (precário ou não),que já não temos idade nem saúde para emigrar e que gastámos as nossas economias a pagar-lhes cursos superiores e mestrados.
ORTEGA

Luis Novaes Tito disse...

António,
Também ando por estas suas águas. Mais coisa, menos coisa, mais estágio, menos estágio sempre é preferível estudar que não estudar mas estudar para ser escravo é mais parvo do que ser escravo sem ter estudado. Por uma razão que se prende com o facto de que, se o estudo tivesse sido ensinamento, o estudante nunca seria escravo numa sociedade liberta. O problema é que esta malta a quem foi dada a possibilidade de estudar convenceu-se que isso servia para estatuto esquecendo-se que se todos tiverem os mesmos estudos ficam todos no mesmo nível. Já ninguém os trata por doutor, que chato, deixaram de lhes dar importância, que chato e que parvos.
Quanto ao resto, tipo “ir à luta”, inventar, correr risco, foçar, népias! Venham lá os trinta ou quarenta euros para o próximo concerto dos Deolinda, que a casa não pode ficar vazia e a Ana Bacalhau e os amigos agradecem (sim, que os Deolinda não são parvos)

Anónimo disse...

adorei!
a amancebada mais velha