08/05/11

Mitos : " Vivemos acima das nossas possibilidades "

Frase repetida até à exaustão por tudo o que é político e fazedor de opinião.
Quando a ouço, fico sempre com a sensação de que qualquer coisa bate mal na formulação da mesma.
Há nela a ideia de que vivemos sempre endividados ou que num determinado momento das nossas vidas tivemos dinheiro que gastámos em vez de o colocar debaixo do colchão.
Sobre a primeira situação diria que ter divídas em si não é um mal...desde que as paguemos no prazo estipulado.
Sobre como gastámos o dinheiro já a coisa fia mais fina. Se pensarmos num caso de um cidadão que num determinado momento, face ao dinheiro que tinha e esperava vir a ter, o aplicou, por exemplo, na compra de uma casa é natural que já não tenha o dinheiro mas ficou com património. Se o tivesse guardado debaixo do colchão estaria melhor ? Penso que ninguém  saberá a resposta. Até porque não é seguro que o dito cidadão resistisse  à tentação de, de vez em quando,  ir debaixo do colchão retirar umas notas para umas férias no Brasil.
Claro que os exemplos individuais são redutores, mas gosto de os referir porque, penso, nos obrigam a conversar sobre alternativas.
Claro que quando passamos para um país ou melhor para um Estado já a coisa fia mais fina. No caso português pensa-se logo onde andarão os triliões que recebemos da Europa nas úlltimas décadas. Alguns são visíveis : estradas, edifícios públicos, infra-estruras, etc. Algumas provocaram benefícios evidentes mas eventualmente difíceis de quantificar.
Um exemplo : ter passado a fazer Lisboa - Faro em 2 h 30 em vez de 5 horas, devido à A2, permitiu-me, quando me desloco ao Algarve em negócios, fazer 5 reuniões em vez de 2 , viajar em melhores condições e com menos possibilidades de acidentes. Se depois não fui capaz de concretizar negócios e facturar mais...incapacidade minha.
Depois, terá havido alguns milhões gastos ou não se sabe bem onde ou em obras que não deram o rendimento esperado. Aí eu diria que além dos casos de corrupção terá havido falta de  capacidade de fiscalização, de planeamento e de análise custo vs benefício.
Mas porquê concluir que "vivemos acima das nossas possibilidades " ?
Eu diria que possivelmente fomos incapazes de aumentar a produtividade quando passámos a dispor de melhores meios.
Haverá sempre desperdícios, mas um bom gestor tem que ter a preocupação diária de os minimizar e aumenttar a produtividade. E aqui é que falhamos (quase) todos.
Há umas semanas  um relatório da OCDE dizia que somos quem trabalha mais horas ( e algumas não pagas ) , situação que me lembra duas histórias da minha vida profissional.
A 1ª, e já lá vão uns 20 anos, é sobre o comentário que o meu patrão da altura fazia sobre quem ficava a trabalhar sistematicamente  para além do horário de trabalho normal. Dizia ele :
" António, se isso acontece das duas uma, ou és incompetente ou queres dar graxa ao chefe."
A 2ª, e já lá vão uns 15 anos, passou-se quando trabalhava numa empresa portuguesa que tinha capital alemão. Frequentemente necessitava contactar  os escritórios na Alemanha. Para o fazer, certo e sabido que se telefonasse um minuto que fosse depois da hora de fecho já não encontrava ninguém no escritório. Em contrapartida nós, em Lisboa e na fábrica, saíamos frequentemente depois das horas normais de expediente.
Assim eu prefiro dizer, em contraponto ao "vivemos acima das nossas possbilidades ", que " trabalhamos abaixo do nosso potencial." 

2 comentários:

expressodalinha disse...

Um dia sai do emprego às 10 da noite. Azar. Encontrei o chefe. "Olha, este é dos meus"... Nunca mais consegui jantar a horas! Mais que o potencial, é uma lógica judaico-cristã.

Galeota disse...

"....
d) Poupança e consumo

358. Os consumidores que, em muitos casos, dispõem de amplas margens de poder de aquisição, muito para além do limiar de subsistência, podem influenciar consideravelmente a realidade económica com a sua livre escolha entre consumo e poupança. A possibilidade de influir nas escolhas do sistema económico está nas mãos de quem deve decidir sobre o destino dos próprios recursos financeiros. Hoje, mais do que no passado, é possível avaliar as alternativas disponíveis não somente com base no redimento previsto ou no seu grau de risco, mas também exprimindo um juízo de valor sobre os projectos de investimento que os recursos irão financiar, na consciência de que "a opção de investir num lugar em vez de outro , neste sector produtivo e não naquele, é sempre uma escolha moral e cultural..."

in "Compêndio da Doutrina Social da Igreja" - Conselho Pontifício "Justiça e Paz" - Editor Principia - 1ª edição - Novembro de 2005